EXPERIÊNCIA DA COVID-19 ENTRE OS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL
Seminário apresentado pela discente Raquel Moraes dos Santos, orientada pelo docente Felipe Tavares, programa de pós-graduação do Instituto de Saúde Coletiva (ISC), Universidade Federal Fluminense (UFF), na disciplina de Tópicos em Saúde Coletiva I, ministrada pela docente Vilma Fonseca. Em 01º de outubro de 2020.
Panorama atual de indígenas no Brasil. O Censo Demográfico do IBGE (2010) apontou para a presença de 817.963 indígenas: 502.783 em Zona Rural e 315.180 em Zonas Urbanas. Em 2010, havia cerca de 1856 terras indígenas. Em 2020 estima-se, preliminarmente, a existência de 7.103 localidades indígenas. O Brasil tem hoje 305 etnias diferentes que contam com 274 diferentes línguas indígenas registradas. Fica claro o quanto esta população contribui com a riqueza de culturas e tradições para nosso país.
Distribuição Indígena no Brasil em 2010: há maior concentração de povos indígenas na região Norte do país (cerca de 55%), com decréscimo nas demais regiões.
O QUE É SAÚDE INDÍGENA?
Existem 4 pilares que sustentam
a saúde indígena: o direito à saúde é garantido pelo SUS que contém subsistemas
para garantir o atendimento aos indígenas dentro das próprias terras, sejam
isolados ou aldeados. O SasiSUS, de 1999, foi criado para garantir o
atendimento à saúde dos povos indígenas dentro de suas terras. Os DESEIs
(Distritos Sanitários Especiais Indígenas), de 1990 são considerados espaços e
unidades gestoras descentralizadas do SasiSUS e desenvolvem ações de atenção
primária, como, por exemplo, saneamento básico. Esses distritos podem abranger
uma área que contempla mais de um município de um ou mais Estado da Federação. O
PNASPI, de 2002, é a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos
Indígenas, que leva em consideração as singularidades culturais, epidemiológicas
e operacionais dos povos indígenas. O SESAI, de 2010, são as Secretarias
Especiais de Saúde Indígena, responsáveis pela coordenação, planejamento e
supervisão da política que é executada, acompanhando o processo de gestão do
SasiSUS.
FATORES QUE TORNAM OS INDÍGENAS
VULNERÁVEIS
1) Biológico: contato com não
indígenas e um sistema imunológico não fortalecido, expondo-se às doenças que
não são características de seus povos e localidades. Ao contraírem muitas
doenças, eles a contraem de forma grave, levando à óbito.
2) Social: questão ambiental
associada à estrutura. Muitos não têm acesso a saneamento básico nem a água
potável. O atendimento básico e a estrutura para o mesmo também é ausente. Muitas
aldeias são localizadas muito afastada dos centros de atendimento, além da
grande precariedade dos mesmos.
3) Ambiental/forma de
convivência: a ideologia do convívio coletivo ainda é muito forte. Conforme pesquisas
do Instituto Socioambiental, nas áreas mais concentradas na região Norte há domicílios
com cerca de 25 a 32 pessoas vivendo no mesmo ambiente domiciliar. Este fato
torna difícil a implementação das medidas de isolamento social recomendadas para
evitar a disseminação do coronavírus. Além disso, os rituais culturais também dificultam
as medidas de isolamento. A mediação e o respeito à cultura são fundamentais para
levar a conscientização sobre a situação atual da pandemia para que ao mesmo
tempo possa haver proteção dos indígenas, sem desconsiderar sua cultura e seus hábitos.
Por exemplo, no Estado de Mato Grosso do Sul, um país amplamente difundido hábito entre indígenas e não indígenas é compartilhar uma infusão gelada da erva Ilex paraguariensis em rodas de conversa usando o mesmo metal palha. São rituais culturais onde a ação da saúde deve
ser promovida de modo diferenciado.
INDICADOR DE VULNERABILIDADE
DAS TERRAS INDÍGENAS EM RELAÇÃO À COVID-19:
A Universidade de Minas Gerais
e o Instituto Socioambiental estabeleceram um estudo integrando variáveis, de
vulnerabilidade epidemiológica e de vulnerabilidade social, a partir do cálculo
de probabilidade condicional (Bayesiano), levando-se em consideração os
seguintes fatores: a) distância de centros de unidades hospitalares, b) distâncias
das Unidades de Terapia Intensiva (UTI), c) acesso ao saneamento básico,
percentual de idosos da população, d) respiradores disponíveis para
atendimento, entre outros.
Mapa de vulnerabilidade: indicadores
de 1 (menor) a 5 (maior) (Fonte: ISA)
Mortalidade em indígenas:
De acordo com dados da Fiocruz
(Fundação Oswaldo Cruz), há indícios de que a mortalidade é de 2 a 3 vezes maior
entre os indígenas. Estes estudos apontam para a vulnerabilidade nos âmbitos biológico
e social.
Casos e óbitos em terras
indígenas.
O primeiro caso confirmado foi
em 1º de abril, de uma jovem da etnia Kokama, em santo Antônio do Içá, interior
do Estado do Amazonas. Esta jovem se recuperou e é uma agente de saúde que, ao
se contaminar no trabalho, acabou disseminando o vírus em sua aldeia.
O primeiro óbito foi de uma
mulher de 87 anos, da etnia Borari (Alter do Chão, Santarém/PA) não havendo
registro da data do óbito. Já o segundo óbito foi de um homem do povo Mura, de
55 anos, residente no município de Itacoatiara, no Amazonas. As datas dos
óbitos não são relatadas pois em muitas etnias, por questões culturais, há proibições
sobre a divulgação destas informações. Não é comum se falar de indígenas que já
foram a óbito.
O quadro Painel, da APIB, de
01º de outubro de 2020 aponta a confirmação de 34.402 casos confirmados, com
829 óbitos e 158 povos afetados. Confira os dados atualizados aqui.
Diferente dos dados da APIB, a
Sesai aponta números inferiores, a saber, até o dia 1º de outubro de 2020, de
28.510 contaminados, 443 óbitos. Esta diferença ocorre em função do método de avaliação
e coleta dos dados. Enquanto a APIB apresenta dados em nível nacional, a Sesai
apresenta dados apenas de indígenas aldeadas e/ou zonas rurais. É alarmante
observar que a grande maioria dos casos de Covid-19 foi em indígenas aldeados
e/ou em zonas rurais quando, se poderia pensar que os que vivem em zona urbana
poderia ter sido mais afetados em termos quantitativos.
Atual Governo Federal e os
Povos Indígenas
No dia 6 de fevereiro, o presidente
da República encaminhou para a Câmara dos Deputados um projeto de lei (PL nº
191/2020) que prevê a regularização da pesquisa e da lavra de recursos minerais
e hidrocarbonetos e o aproveitamento de recursos hídricos para a geração de energia
elétrica em terras indígenas. Cabe, neste ponto, questionar se este projeto de
lei de fato não está violando alguns outros dispositivos legais como os artigos
231 e 232 da Constituição Brasileira de 1988, bem como a Convenção nº 169 da
OIT (Organização Internacional do Trabalho). Estes artigos garantem aos povos indígenas o direito à terra sobre a qual vivem, sendo organizações legítimas para ajuizar sobre seus direitos e interesses. Dessa forma, parece estranho que o PL 191/2020 permita a extração e uso de recursos das terras indígenas.
A reportagem da organização Socioambiental
(aqui), que trata da omissão do governo na tragédia indígena, traz o retrato de
uma indígena em um velório. A reportagem relata ainda a principal forma de transmissão,
a partir de indígenas que são agentes comunitários de saúde. Importante salientar
que, embora haja os subsistemas, eles ainda são muito precários. Relatos dos próprios
indígenas atestam a falta de equipamento mínimo necessário como, por exemplo, equipamentos
de proteção individual (EPIs), portanto, havendo muitos casos de contaminação destes
profissionais em sua atuação profissional e levando o vírus para suas aldeias
em zonas rurais.
O jornal The New York Times em um levantamento destes casos em zonas rurais, também conclui que a porta de entrada do vírus nas aldeias ruraisse deu em decorrência das condições precárias de trabalho dos profissionais de saúde indígenas nos seus subsistemas de saúde. Veja aqui.
Garimpeiros e grileiros também
levaram o vírus paras as aldeias pois houve aumento das invasões de terras após
o início da pandemia. Se o projeto de lei for aprovado, abre-se uma porta enorme
para invasão das terras e um descontrole da saúde destes povos, especialmente
os mais isolados. Pode-se estar à beira de um genocídio destas populações no decorrer
dos próximos anos em função dessa busca desenfreada pela exploração de minerais
e riquezas nestas terras protegidas.
O terceiro caso mais comum de transmissão
de Covid-19 ocorre quando os próprios indígenas saem de suas localidades e vão
aos centros urbanos em busca do Auxílio emergencial oferecido pelo governo. Não
é incomum escutar dos próprios indígenas relatos de que a Covid-19 dentro é
nova ameaça e que de uma forma ou de outra, escancarara os velhos problemas.
Ao analisarmos a história destes
povos originários, ela é marcada, desde sempre, por uma necropolítica. São povos
que sempre foram violentados e mortos por não pertencerem ao padrão que é
estabelecido (branco, ocidental, europeu, civilizado). Portanto, esses povos são
marginalizados e, a cada dia que se passa, vê-se o governo atual priorizando a economia
no lugar vez de vidas (especialmente as vidas que vivem à margem como os indígenas,
os negros, os ribeirinhos, as pessoas em situação de rua), percebe-se que estas
vidas têm um valor menor frente às políticas atuais, já que de alguma forma não
movimentam a economia e, portanto, são consideradas descartáveis.
Chamando a atenção para a questão
do Auxílio Emergencial, sabe-se que cerca de 40% do orçamento da Funai foi
cortado o que impactou na distribuição de cestas básicas aos indígenas. Isto fez
com que muitos dos indígenas tivessem que tentar o Auxílio Emergencial, além
daqueles que precisaram buscar outras fontes de renda e trabalho, foram
contaminados e retornaram contaminados para suas aldeias, aumento a disseminação
da doença. A taxa de contágio e o número de casos e mortes aumentou consideravelmente,
especialmente em áreas rurais.
Para finalizar, é importante salientar que, a despeito de estarmos lidando com um vírus antes desconhecido para todo o mundo, em especial no que se refere às comunidades e aos povos indígenas, traz-se à tona toda uma problemática acobertada, escondida, invisível à grande maioria. A pandemia escancarou ainda mais a política do “deixar morrer aqueles que não interessam”, aos invisíveis, demonstrando um verdadeiro descaso governamental e institucional em proteger estes povos, em promover a saúde destes e manter a cultura, a tradição e as terras.
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3- COVID-19 e os
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https://covid19.socioambiental.org/. Acesso em: 27 de setembro de 2020.
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5- SESAI, MINISTÉRIO DE SAÚDE, 2020. Disponível em:
https://saudeindigena.saude.gov.br/corona. Acesso em: 28 de setembro de 2020.
6- BASTA, Paulo. Covid-19 avança rumo às terras indígenas.
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7- Covid-19 e os Povos Indígenas. SocioAmbiental, 2020.
Disponível em:
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Acesso em: 28 de setembro de 2020.
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10- Atividade Legislativa. SENADO FEDERAL, 2020. Disponível
em:
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_232_.asp#:~:text=232.,todos%20os%20atos%20do%20processo.
Acesso em: 29 de setembro de 2020.
11- O que é Estatística Bayesiana. Instituto Brasileiro de
Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD), 2020. Disponível em:
https://www.ibpad.com.br/blog/o-que-e-estatistica-bayesiana/. Acesso em: 29 de setembro em 2020.
12- Brazil
Health Workers May Have Spread Coronavirus to Indigenous People. New
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13- País tem 7 mil localidades indígenas e quase 6 mil
quilombolas, estima IBGE. Rede Brasil Atual, 2020. Disponível em:
https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2020/04/pais-tem-7-mil-localidades-indigenas-e-quase-6-mil-quilombolas-estima-ibge/.
Acesso em: 29 de setembro de
2020.
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Silvana Beutinger. COVID-19 in Brazilian indigenous people: a new threat to old
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vol.53 , Uberaba 2020, Aug 26, 2020. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0037-86822020000100915&script=sci_arttext&tlng=en.
Acesso em : 27 de setembro de 2020.



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