VAGINISMO: UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA
Vaginismo: um problema de saúde pública
Autora: Mariana
Sita da Silva Fonseca, discente de Psicologia
Revisto e editado por
Vilma Aparecida da Silva Fonseca, Carolina Chehab e Eloa Nogueira de Souza
Apresentação: Esse
artigo trata de um problema de saúde que afeta 15% das mulheres brasileiras,
portanto cerca de 15 milhões de brasileiras: o vaginismo. Ele afeta uma
população especifica, ou seja, o gênero feminino, envolve questões culturais,
religiosas, psicológicas e médicas. Nesse caso, exige uma abordagem
multidisciplinar e uma reflexão por parte da sociedade que, historicamente,
ignorou ou oprimiu as mulheres e seus problemas. O prejuízo da sexualidade traz
inúmeras consequências negativas para a vida da mulher, que são abordadas por Mariana Fonseca nesse artigo. Por suas características descritas acima,
trata-se, sem a menor dúvida, de um problema de saúde coletiva que exige um
pensar inter-transdisciplinar para sua solução ou minimização.
O vaginismo é uma disfunção sexual caracterizada
pela contração involuntária dos músculos do assoalho pélvico quando se tenta
penetração vaginal com pênis, dedo, tampão ou espéculo ginecológico (DSM-V, 2014, p.437). Tem como
característica etiológica a contração da musculatura pélvica no momento da
penetração ou da inserção de qualquer objeto, sejam eles sexuais, o próprio dedo
(havendo então uma impossibilidade se ser realizado sexo com penetração) e até
mesmo o espéculo ginecológico podendo ser extremamente doloroso caso o médico
force o exame (MOREIRA, 2013).
Podemos enfatizar que os espasmos
não ocorrem apenas no músculo do assoalho pélvico, mas também nas coxas, nos
glúteos, no ânus e até no abdômen, fazendo com que seja realmente uma resposta
do corpo que, involuntariamente, está dizendo não ao sexo, apesar de a mulher
desejar a penetração. Esses espasmos podem ter sua intensidade variada, desde
leves até algo mais intenso, causando o bloqueio completo da vagina, podendo ser
acompanhado de dor (VALINS,1992).
Além da contração da musculatura
pélvica, atualmente já é percebido que existem outros fatores inseridos no
vaginismo, como por exemplo, infecções, traumas genitais, musculoesqueléticas
(como nos casos de endometriose). Fatores sociais como a religiosidade, abuso
sexual, histórias traumáticas sobre o sexo e, até mesmo, histórias relacionadas
ao parto. Tais fatores são correlacionados com experiências negativas e a falta
de explicação a respeito das sensações genitais (porque, ainda hoje, a
masturbação realizada pela mulher é vista como um tabu).
Além desses fatores, questões
comportamentais também podem ser destacadas, como por exemplo, a fuga esquiva
devido ao medo da dor, o estilo cognitivo da pessoa que muitas vezes entra em
uma castastrofização[1]
e uma hipervigilância excessiva[2],
ansiedade e depressão que associadas se tornam agravantes para casos de
vaginismo, e, até mesmo, cognições sexuais negativas.
Entretanto, muitas
vezes, o vaginismo não é diagnosticado por falta de informação e vergonha da
mulher em estar relatando para o profissional o que está acontecendo com ela.
Por isso, é essencial que o profissional se atenha também para as
particularidades de cada paciente, possibilitando uma melhora na qualidade de
vida dela.
Antes de ser
realizado o diagnóstico, o profissional encarregado precisa entender a história
de vida da paciente, o que envolve a compreensão do histórico sexual desde o
seu início até os tempos atuais. Por isso, a escuta para o problema da paciente
é fundamental, uma vez que se trata de algo cuja essência não é apenas
biológica, mas relacionada com múltiplos fatores, sejam eles ambientais ou
psicogênicos, sendo capaz de se apresentar como uma questão crônica que causa
desconforto à mulher (ABDO & FLEURY, 2006).
Quando se fala da associação do
vaginismo com a ansiedade e depressão, é importante reforçar a causa
psicológica como agravamento dessa disfunção sexual. Além disso, a própria
idade pode ser um fator complicador. A exemplo disso, existem mulheres muito
jovens que, mesmo não possuindo o vaginismo, mas por estarem iniciando sua vida
sexual, podem apresentar uma intensa ansiedade e medo impedindo que ocorra o
ato sexual (VALINS, 1992).
Com base no parágrafo anterior,
algumas vezes, a disfunção sexual pode vir como uma dificuldade na excitação,
tornando a lubrificação vaginal ausente. Entretanto, é fundamental entendermos
que a falta de lubrificação da mulher não está associada com a falta de
interesse pelo sexo, mas pode ser algo decorrente de uma disfunção hormonal
(TAM & LEVINE, 2018). Ou seja, o vaginismo pode apresentar-se de
diferentes formas e ter inúmeras causas, como uma
educação sexual rígida, questões psicológicas, emocionais, físicas, hormonais,
sociais e até um abuso sexual na infância. Vale destacar que quando as
mulheres evidenciam algum trauma na infância ou até mesmo com parceiros, podem
correlacionar essas experiências com as dores traumáticas para elas, gerando
assim uma disfunção sexual como o vaginismo (SERRA, 2009).
O vaginismo acaba sendo uma disfunção sexual
que faz com que a mulher se sinta menos feminina justamente por não conseguir
ter relações sexuais e como consequência acaba se sentindo infértil por não
conseguir dar à luz. É muito comum que o vaginismo passe anos sem ser
diagnosticado por se tratar de um problema que está na zona íntima da mulher,
não ser visível aparentemente, o que acaba passando despercebido aos olhos de
quem o possui (VALINS, 1992)
Ademais, por ser uma disfunção sexual pouco
falada, faz com que a mulher ao se prontificar a contar com um médico acabe sendo
recebida erroneamente, com tratamentos inapropriados para se chegar a um
diagnóstico. Em exames ginecológicos tem sido cada vez mais comum as mulheres
vagínicas serem mal compreendidas. Elas acabam passando por exames que provocam
dor durante o procedimento, justamente por conta da falta de informação dos
médicos em relação ao assunto (MOREIRA, 2013).
Por isso é importante que ao perceber o problema, a mulher procure o
diagnóstico multidisciplinar, optando por profissionais que entendam sobre o
assunto, como fisioterapeutas, ginecologistas e psicólogos. Algo que vem
auxiliando os diagnósticos das disfunções sexuais é a inserção de profissionais
mulheres no campo da saúde, o que auxilia as pacientes a se sentirem acolhidas,
desenvolverem um vínculo e se encorajarem a compartilharem suas histórias e realizarem
o tratamento da disfunção.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais. 5.ed. Texto Revisado. Porto Alegre: Artmed, 2005.
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SERRA, Melina. Qualidade de vida e disfunção sexual: vaginismo, 2009. Dissertação (mestrado em psicologia clínica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- PUC-SP, 2009.
VALINS, Linda. Quando o corpo da mulher diz não ao sexo: compreendendo e superando o vaginismo. Rio de Janeiro: imago editora LTDA,1994.
[1]
Catastrofização é um dos tipos de erros cognitivos ou pensamentos automáticos
que existem, consiste no paciente achar que o pior vai acontecer, sem levar em
consideração outros desfechos. Acreditar que esse acontecimento será terrível e
insuportável.
[2]
Hipervigilância Excessiva seria um estado de alerta máximo que a pessoa começa
a ter com o ambiente a sua volta, como se o ambiente fosse perigoso mas nem
sempre esse perigo é real, o que acaba desencadeando um sentimento
desconfortável no corpo.
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